Era negra, baixa, forte, de um lugar com nome de longe. Nada do estereótipo da carioca suburbana falante, simpática. Encarava o mar de cara amarrada, o nariz grande reto, olhando por cima das ondas como quem pede uma explicação. Aparentava mais idade que eu, mas não devia ter – a evidente vida dura, não bastasse o que tirava ou nunca tinha dado, também cravava suas garras no rosto. Mães. Éramos mães sozinhas, cada uma com dois filhos pequenos a tiracolo, numa praia lotada do Rio de Janeiro do último carnaval. Cheguei e não tive dúvida: naquela areia imunda por greve da Comlurb, o único lugar certo pra mim era ao lado dela. Esqueci de perguntar o seu nome. Seu filho brincava com um tratorzinho que o meu quis assim que viu. Gelei. Não seria só vigiar uma pulando onda em meio a quinhentas cabeças, mas também gerenciar a crise que certamente viria até o outro parar de chorar por não ter o brinquedo do menino.
Mas não. O filho dela, ouvindo a mãe, e numa docilidade inesperada, entregou a engenhoca pro meu filho. Que ficou completamente feliz. A mãe também. Agradeci sem saber se escutava, tão distante o olhar ainda distante.
Tomava cerveja. Perguntei onde tinha comprado, resmungou que tinha trazido de casa. Achei quem vendesse, pedi duas, estendi uma pra ela. Fez que não queria, mas pegou, ensaiando um sorriso e se calando de novo. Dizer o quê? Temos que olhar as crianças. Juntas. Lá pelas tantas, eu já dava picolé pras dela e ela passava protetor solar nas minhas.
Minha pequena correu pra longe atrás de alguma coisa.
Antes de eu ver ela já gritava: —Gaaaleeeegaaaa, aí não!Galega voltou na hora.
—Você não tem marido não?, disparou na segunda rodada de cerveja.
Não precisei responder, ela continuou pra ela continuar:
—Eu tinha um marido até um ano atrás.
—O que aconteceu?
—Ele disse pra mim que cansou. Chegou um dia, trancou o quarto, sentou na cama, baixou a cabeça, teve coragem de olhar pra mim não. E disse: tô cansado, cansado de você, desses meninos, da casa.
—E aí?
—Aí, nada (dura, duríssima). Saiu de casa. Deve estar por aí descansando.
Primeiro ela, depois eu, caímos na gargalhada, que terminou em lágrimas. As minhas disfarcei, convenientemente de óculos escuros que estava. As delas deixou cair voltando a peitar o mar com o queixo. Esquecemos das crianças. Que se divertiam mais do que o normal naquela areia vermelha fervendo chamuscante.
A cerveja gelada continuava a chegar, a maré tinha subido e molhava nossos pés. O brinquedo já tinha voltado pras mãos do dono; o castelo das meninas ficando enorme. Passou o biscoito Globo, pedi seis sacos. A história triste dela, esqueci.
Ao contrário, nos sentia ali, eu e minha estranha tão conhecida, naquele momentinho ali, perfeitamente felizes. Pensei no cara cansado, senti pena. Dele, não dela. Por perder o filho emprestando o brinquedo sem reclamar; as estaladas do biscoito de polvilho na boca da filha enquanto ela ria, perdeu. O recorte bonito que o perfil empinado da minha colega de barraca fazia no mar esverdeado, daquele jeito, naquele ângulo, com aquela idade, tinha perdido.
Melhor esquecer.
Ficou tarde, o sol abaixando e a cerveja desfocando os olhos das crianças, hora de ir.
Quis me despedir, abracei aquela pele linda de chocolate, que me abraçou de volta. A carne dela tão quente e tesa não deixava dúvida, atravessaria. Cansada, descansada, a explicação do mar podia vir, podia não vir.
GABRIELA JARDON é carioca, mas de verdade é de Brasília. 48 anos, juíza por escolha, escritora sem escolha, doutoranda em sociologia jurídica, atira palavras ao mar tentando chegar na outra margem das pessoas. Participa do coletivo feminino de escritoras @escreviventes e, há 13 anos, do coletivo feminino de leitura @irmandade_bsb. Publicou em coautoria com @marianasiqcarvalho, @daniellemartinssilva e Wanessa Montoril o livro de contos independente “retratofalado: ensaios em estado de imagem”. Publicou contos nas revistas Luminescências (@revistaluminescencias), Subtexto (@escritorbrasileiro) e Contos de Samsara (@contosdesamsara).